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sábado, 5 de junho de 2010

Reflexão e compreensão a cerca da formação do pensamento geográfico: história da geografia. Campesinato

Universidade Federal de Goiás – UFG
Campus de Jataí
Programa de Pós-Graduação
Mestrado em Geografia
Mestranda Iolanda Martins da Silva
SILVA, Iolanda Martins
Mestranda em Geografia
UFG/Jataí campus Riachuelo

Reflexão e compreensão a cerca da formação do pensamento geográfico: história da geografia. Campesinato


A compreensão do pensamento geográfico através do tempo histórico, passa pela compreensão do pensamento filosófico. A Geografia tem suas origens no conhecimento global da antiguidade que buscava explicar o mundo e a existência do homem no mesmo. Assim, no intuito de sistematizar as leituras a respeito do pensamento geográfico discutiremos em um breve espaço, a visão segundo Paul Claval, dos aspectos teóricos metodológicos à respeito do objeto de estudo bem como a evolução histórica do pensamento geográfico.
Para Paul Claval a historicização da geografia evolui da geografia tradicional descritiva clássica do positivismo e do neopositivismo , para uma geografia preocupada com uma abordagem humanista e que vislumbre as dinâmicas sociais em suas várias matizes. Porém foi a partir da metade do século XX que se fez sentir mais fortemente as necessidades de uma geografia que desse conta dos movimentos de renovação e romper com a perspectiva tradicional na busca para si só de novas linguagens, novas propostas, novos caminhos
Após a Segunda Guerra Mundial, seus participantes sonharam em construir uma sociedade mais justa e mais próspera do que no início do século, onde toda a sociedade deve beneficiar se do progresso.Esses homem de ação pedem ferramentas eficazes de planificação econômica e espacial: têm necessidades de uma ciência,a interpretar evoluções complexas, não depois de terem acontecido os fatos, mas que mostrem em que sentido evoluem os sistemas das relações sociais e os fenômenos geográficos.Deve também prever todas as incidências das medidas destinadas a fazer frente, ou acelerar segundo o caso, as transformações .
A idéia de que a ciência se contenta em seguir a realidade é abandonada e é valorizada o papel da hipótese e da imaginação dos objetos de estudo científicos. O cientista aperfeiçoa o raciocínio para interpretar a realidade: esta construção teórica é tida como verdade enquanto não for contradita pela experiência .Uma hipótese científica só é aceitável se puder ser submetida a experimentação e através desta, não identificada como falsa, lembra Karl Pooper.
Este novo método, censura a geografia clássica , e juntamente com seus adeptos encontra um nome . A expressão “nova geografia” já utilizada em algumas publicações ( Claval,1964 ) é popularizada e dá uma interpretação neopositivista sistemática ao longo dos últimos anos da década de 60 . O balanço da nova geografia é positivo sob muitos pontos de vista. A geografia deixa de ser considerada uma ciência natural pois passa a tratar de realidades sociais , culturais ou econômicas. Aproxima se das ciências sociais.
Estas mudanças se dão através, principalmente, do desenvolvimento tecnológico e a aptidão para novas ferramentas de uso geográfico. Muito se pensou sobre o conhecimento de geografia articulado ao movimentos populares e dos movimentos ambientalistas e ecológicos ocorridos na década de sessenta. Difundiu-se a necessidade da relevância social e expandiram-se propostas de análise visando substituir as normas metodológicas do positivismo da geografia física tradicional .
A transposição e a dinâmica da sociedade em suas várias escalas, ocorridos na década de sessenta, difundiu-se a necessidade da relevância social e expandiram-se propostas de análise visando substituir as normas metodológicas do neopositivismo da geografia, representadas pelo materialismo dialético, fenomenologia e abordagem humanística. Tais proposições repercutiram em muitos estudos sobre os acontecimentos sociais e econômicos, no campo das questões relacionadas com a Geografia humana.
Com isso, o conhecimento científico apresentava nova dimensão a respeito da estrutura, funcionamento e dinâmica dos sistemas e à compreensão de como o mundo funciona.
Segundo Claval, “as transformações que a geografia conhece desde o início da década de 80 refletem a amplitude das mutações que afetam o mundo: o crescimento das ameaças que pesam sobre o ambiente, a mundialização da economia, a metropolização acelerada, o desmoronamento do bloco socialista, a contestação das filosofias políticas de origem ocidental”, desenha um novo perfil para o pensamento geográfico.
Assim a geografia explicativa busca compreender como os homens estruturam o espaço para permitir às sociedades funcionar eficazmente e de forma harmoniosa.
No mundo de hoje, esta etapa deve ser precedida de uma investigação sobre a maneira como os homens concebem a vida e a natureza ; a sociedade e as suas finalidades . A abordagem humanística , ainda segundo Claval é indispensável para perceber as diferentes dinâmicas em curso nas sociedades que partilham a terra..Atenta à diversidade dos sonhos e aspirações humanas , a geografia torna se essencial como introdução a todas as ciências do homem. O universo pós moderno acabou com o fetichismo do tempo. Concede ao espaço uma atenção que lhe deveria ter sido dada há muito tempo.
Concluindo, a geografia vem se ressignificando em cada contexto histórico pelo qual perpassou a humanidade.Ela não se fez de repente em sua forma científica e racional de saber. Seu desenvolvimento seguiu um caminho complexo : as abordagens que implicaram sucessivamente e a maneira de as combinar não parou de mudar...todas as matizes da humanidade sofreram as transformações e viram a imagem do mundo atual se configurar .. A Terra mantém com as sociedades humanas relações essenciais ..tomam formas diferentes consoantes as culturas e traduzem se em paisagens, modos de vida que os geógrafos se esforçam para decifrar. A geografia segundo este prisma fornece elementos de cultura em seus aspectos diversos, para que os homens se façam e se tornem autônomos” cidadãos do mundo,” em especial os homens que projetam e constroem sua história e a história da humanidade.


Vivemos em um contexto de economia globalizada, marcado por mudanças / transformações organizacionais e tecnológicas em todos os setores da economia que se fazem acompanhar de novas formas sócio-espaciais, e da re-significação das velhas formas. Como o rural, numa determinada escala, representa uma fração do espaço geográfico, suas condições naturais, juntamente com o meio técnico científico informacional, abrem novas possibilidades para o trabalho humano.
Discutir tais transformações a que se propõe compreender, a geografia agrária abre espaço no campo da investigação da ciência geográfica na atualidade possibilitando análises sobre essa problemática no século XXI, sobre as múltiplas dimensões que envolvem os aspectos teóricos e ideológicos, ponderando as contradições vividas pelo campo no Brasil e no mundo atual.
Pensar as pesquisas em geografia agrária, bem como as correntes filosóficas do pensamento nos remete ao surgimento desta ciência ainda no século XIX, segundo à luz dos debates das correntes filosóficas positivista, historicista e por ultimo sobre a influência da dialética. Segundo OLIVEIRA (2003) o positivismo, o historicismo e a dialética são as três correntes filosóficas de pensamento que fazem as raízes do pensamento geográfico moderno.
O positivismo que teve em Auguste COMTE, um de seus principais pensadores, como uma doutrina da neutralidade, estrutura um conjunto de premissas em que a sociedade é regida por leis naturais, isto é, leis invariáveis, independentes da vontade e da ação humana; na vida social, reina uma harmonia natural onde a sociedade pode, portanto, ser epistemologicamente assimilada pela natureza e ser estudada pelos mesmos métodos, e processos empregados pelas ciências da natureza. As ciências da sociedade, assim como as da natureza, devem limitar-se à observação e à explicação causal dos fenômenos, de forma objetiva, neutra, livre de julgamentos de valor ou ideologias, descartando previamente todos os preconceitos A difusão destas idéias, particularmente do postulado de uma ciência neutra, apareceu também, fora do quadro estrito do positivismo, alcançando mesmo o historicismo e o marxismo. Com isto, percebe se que a história do pensamento geográfico na Geografia Agrária, não foi, em hipótese nenhuma, diferente a influência desta corrente de pensamento, sobretudo, na sua versão atual, teórico-quantitativista, está claramente presente entre os geógrafos que estudam o campo.
Já o historicismo, escola de pensamento Alemão, defensora da autonomia do estudo científico das ciências humanas, defendia que ( Wilhelm DILTHEY) todo fenômeno cultural, social, ou político é histórico e não pode ser compreendido senão através da sua historicidade. Entende que existem diferenças fundamentais entre os fatos naturais e os fatos históricos . O historicismo está raiz filosófica do que os geógrafos chamam de possibilismo, a discussão sobre a região na Geografia tem que passar neste contexto pelo historicismo. A história do pensamento geográfico na Geografia Agrária também foi fortemente influenciada, pelo historicismo
Vários pensadores influenciados pelo pensamento marxista expõem a dialética como corrente de pensamento na geografia agrária a saber, Orlando VALVERDE, Manuel Correia de ANDRADE, Pasquale PETRONE Léa GOLDENSTEIN, Manuel SEABRA, entre outros. Esta influência tem sido marcada por princípios que sustentam esta escola de pensamento, visto que esta contesta e desmascara o discurso da neutralidade e objetivo presente no positivismo e no empirismo lógico, e mesmo no historicismo.

Para Karl MARX é "na produção social da própria vida ,que os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência ... Assim, como não se julga o que um indivíduo é a partir do julgamento que ele faz de si mesmo, da mesma maneira não se pode julgar uma época de transformação a partir de sua própria consciência; ao contrário, é preciso explicar esta consciência a partir das contradições da vida material, a partir do conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção".

Vale ressaltar que na história do marxismo vários autores foram influenciados pelo positivismo, o historicismo e o racionalismo. Desta forma, o estudo da agricultura brasileira tem sido feito por muitos pensadores que expressam diferentes vertentes do pensamento marxista, a exemplo, os autores que defendem o ponto de vista que no Brasil houve feudalismo ou relações semifeudais de produção. Neste viés, para que o campo se desenvolva seria preciso acabar com estas relações feudais ou semifeudais e ampliar o trabalho assalariado no campo. Para os autores marxistas a luta dos camponeses contra os latifundiários exprimiria o avanço da sociedade na extinção do feudalismo, portanto a luta pela reforma agrária seria um processo de avanço do capitalismo no campo.
A partir desse debate teórico relativo à agricultura familiar, vem sendo travado a tendência de inserção do capital monopolista, típico do sistema capitalista de produção, em todos os ramos e setores econômicos. Trata-se da generalização das relações capitalistas de produção no interior da produção agrícola. Esse processo resultaria, segundo grupos distintos de autores, ou na destruição do campesinato, ou na (re) criação das relações não capitalistas de produção a partir do processo contraditório de desenvolvimento do modo capitalista de produção.
Na primeira possibilidade apareceriam duas classes distintas: os camponeses abastados (pequenos capitalistas rurais) e os camponeses empobrecidos, que se tornariam assalariados. Os latifúndios seguiriam em direção à modernização e à transformação em empresas capitalistas, enquanto as relações não capitalistas de produção no campo estariam em vias de extinção. A desintegração do campesinato poderia ocorrer, ainda, via separação do pequeno produtor dos meios de produção através de ações políticas no processo de inserção de relações capitalistas no meio agrícola.
Segundo Oliveira (2003) a compreensão do papel e lugar dos camponeses na sociedade capitalista e no Brasil em particular, é fundamental. Ou entende-se a questão no interior do processo de desenvolvimento do capitalismo no campo, ou então, continuar-se-á ver muitos autores afirmarem que os camponeses estão desaparecendo, mas, entretanto eles, os camponeses, continuam lutando para conquistar o acesso às terras em muitas partes do Brasil. Um bom exemplo para esclarecer esta questão é o aumento do número de posseiros no Brasil.
O desafio de compreender o campesinato em movimento, suas manifestações e recriações, produzidas por suas trajetórias de vida e de luta, são algumas das questões que foram levantas nos estudos de Paulino ( 2006), que é importante referência para os a compreensão das relações capitalista no campo, sendo que tais relações, segundo a referida autora, têm provocado desde o século XIX , diversas interpretações a cerca do papel e do destino, da classe camponesa. Esta não é uma figura do passado, mas está presente nos dias atuais, sendo o campesinato constituído com a expansão capitalista e como produto da contradição desta expansão,e a posse da terra, mesmo que precária afasta o assalariamento e permite a reafirmação da autonomia familiar.
Na compreensão de Paulino (2006) , a medida em que o produtor preserva a propriedade da terra e nela trabalha, utilizando seu trabalho e o da sua família, esta terra se caracteriza, pela natureza do trabalho, como território camponês. Corroborando o pensamento de Oliveira (2003), a autora supracitada ,expõe que no plano teórico metodológico, embora não haja consenso, a respeito do papel e de um conceito do que vem a ser o camponês , esses podem se constituir em uma classe em que contraditoriamente ,o desenvolvimento capitalista não tem provocado seu desaparecimento,mas a sua recriação. Além disso, esses sujeitos nem sempre se reconhecem nesse conceito identifica se, via de regra, por lavradores, agricultores ou sitiantes. Porem tal fato não tal fato não invalida o termo enquanto conceito, que é relativamente novo, surgindo como expressão política do lugar comum desses sujeitos como camponeses.
Martins (2005) afirma que tal fato não invalida o termo enquanto conceito, que é relativamente novo surgindo como expressão política de um lugar comum destes sujeitos. O escamoteamento conceitual é o produto necessário, a forma necessária e eloqüente do modo como o camponês tem tomado parte do processo histórico brasileiro-como um excluído , um inferior, um ausente que ele realmente é, ausente na apropriação dos resultados objetivos do seu trabalho.
Os conceitos vistos como marco político, permite vislumbrar o camponês como classe no ordenamento do território. Esse ordenamento permite ao camponês reproduzir seus próprios meios de vida com uma relativa autonomia, visto que, estes estão sujeitos aos fatores impostos pelo capitalismo. Neste sentido segundo aponta Paulino (2006), este ordenamento se reproduz numa autonomia que se manifesta na maneira com que os camponeses, agregados em unidades familiares e comunitárias, controlam seu tempo e seu espaço de forma absolutamente contrastante com sua lógica dominante. A terra é o significado de subsistência de sua recriação e da própria vida. A autora adverte que não se pode pensar o processo de recriação do campesinato desvinculado da dinâmica que envolve sua propriedade, de posse e de uso, mesmo que, em face a questão agrária brasileira marcada pela concentração excludente da terra.
A questão agrária no Brasil conforme citado, tem sido marcada pela exclusão do camponês em função da concentração da terra pela monopolização do território, que assegura a transferência de renda a setores capitalistas, o que evidencia e explica a lógica contraditória do modo capitalista de produção, que redefine as relações de subordinação camponesa. A heterogeneidade deste modelo, e a principal característica do campo, pois define a existência de dois modelos de propriedade da terra: a capitalista e a camponesa, sendo que a segunda está subordinada à primeira.
Neste viés a propriedade privada capitalista nos remete ao entendimento de que, esta, se constitui enquanto instrumento para a extração da mais valia (acumulo de capital e ampliação dos meios de produção) e vista sob esta ótica como terras de negócio configurando-se como instrumento de exploração do trabalho proletário. Antagônica a este viés, a propriedade componesa consolida-se pela visão de que a terra é instrumento de trabalho, terra para o trabalho familiar e desenvolvimento da mesma.
Estes vieses expostos pela dualidade terra de trabalho (camponesa), terra de negócio (capitalista), são regidos por princípios cujo critério segundo Paulino (2006) , D-M-D indicando que o investimento na agricultura é realizado com o objetivo de se reproduzirem mercadorias que ao serem comercializadas, devem assegurar um retorno monetário superior ao que foi investido - mais valia. Na propriedade camponesa o princípio é outro: M-D-M, em que a produção de mercadoria objetiva a obtenção de dinheiro para a aquisição de mercadorias que não se produzem, mas que são indispensáveis à reprodução da família.
Neste sentido a propriedade capitalista da terra a transforma em mercadoria, sendo a apropriação fundiária um mecanismo da orientação concentracionista e fortalecedora do capital, porém tal supremacia capitalista não descarta ou anula o camponês - pois neste desdobramento o camponês se recria.
Considerando a dinâmica agrária, posse, propriedade e uso da terra, Paulino (2006), enfatiza que o modo capitalista de produção como processo contraditório de reprodução ampliada do capital ao invés de se territorializar, monopoliza o território – bipolariza capital e trabalho, entre os meios de produção força e trabalho. Dessa forma os capitalistas aumentam suas taxas de lucro em função do rebaixamento dos salários dos trabalhadores, e na depreciação dos preços das matérias-primas o que afeta diretamente os camponeses em suas pequenas produções.
Frente aos conflitos e dificuldades impostos pelo capitalismo, aos camponeses resta a sujeição à integração capitalista em seus espaços, e ingresso nas parcerias, com destaque para a avicultura, sericulturas, fruticultura, cafeicultura pecuária e outros. Tais atividades ditas em parcerias são controladas por empresas variadas, algumas delas multinacionais e ainda pelo sistema cooperativista.
A integração em tese, é um modelo de inserção do camponês numa atividade complementar visando a renda complementar da família, porém verifica-se que tais atividades fora oferecidas ao camponês, dadas sua habilidades naturais para o referido trabalho, bem como a temporalidade e ciclo das atividades, visto que os proletários necessitam da continuidade e efetividade no trabalho o que os desabilita para tais atividades.
Na integração os camponeses estão sujeitos às regras impostas pelas empresas e/ou cooperativas, visto que a produção de matérias- primas, esta relacionadas ao lucro e depende diretamente da qualidade, quantidade e preço das mesmas, o que abre caminhos para a produção do capital, ou seja, a sujeição da renda da terra ao capital. As evidencias destas contradições que são próprias da atualidade, nas relações do capitalismo com o campesinato, no qual se consolida a concentração de capitais também proporciona acumulo de riquezas, e a exclusão dos camponeses.
Para Paulino (2006) ainda que estejamos inseridos em um circuito de autonomia, contrária à forma dominante em nossa sociedade, já que a regra é o trabalho convertido em mercadoria, os camponeses igualmente estão diante do processo exponencial da mais valia mediante a transferência da renda. Isso os lança não apenas na necessidade de aumentar a produtividade para compensar o rebaixamento do valor do trabalho vivo, mas de um modo geral, também implica na interdição acentuada ao acesso de determinados bens, inclusive àqueles de caráter básico relativos à saúde, á cultura e ao lazer.
Contudo Paulino (2006) afirma eu em sua pesquisa junto aos camponeses, que a fartura alimentar é um diferencial destes, em relação aos demais trabalhadores proletários. Porém, o camponês se integra ao mundo como pessoa que assim se reconhece mesmo diante do empobrecimento provocado pela interdição ao próprio usufruto da terra – o camponês se situa pelo seu produto. A autonomia dos camponeses no contexto da lógica de classe, se manifesta na luta e na recriação das condições de autonomia, nos meandros da atualidade moderna com suas relações comunitárias tradicionais e familiar.
Como se percebe, varias são as concepções a cerca da compreensão do papel e o lugar dos camponeses. Tendo como linha de pensamento as contradições do modo capitalista de produção na agricultura, fica claro a existência, a permanência e o crescimento incômodo, de um lado da concentração de terra e por outro, da reprodução de relações não capitalistas de produção, e ainda, sobre diferentes interpretações acadêmicas/políticas do desenvolvimento do capitalismo no campo; passando pela renda, concentração da terra e os tipos de reforma agrária desenvolvidos no Brasil..
. Concluindo, as relações camponesas de produção ficam comprimidas pela dificuldade de inovação e pela expansão capitalista no campo. A modernização não alcançou todas as classes sociais de agricultores. Desta forma engendrou-se a ocupação do território rural pelas relações capitalistas de produção, subjugando o agricultor familiar e a renda da terra, e monopolizando a terra e a riqueza produzida no campo. Trata-se da generalização das relações capitalistas de produção no interior da produção agrícola.
A sociedade capitalista é um sistema complexo vinculado a categorias econômicas: preço, capital, salário, juros, renda, que são interdependentes e indissociáveis. O camponês emprega sua força de trabalho e a de sua família, explora o meio de produção, sob seu controle, obtendo o produto de seu trabalho. Este será trocado pelo necessário à sua sobrevivência e manutenção da propriedade durante o transcorrer do período que antecede a próxima colheita, sendo impossível aplicar o cálculo capitalista do lucro.
Portanto, o camponês é a personificação da forma de produção simples de mercadorias, na qual o produtor direto detém a propriedade dos meios de produção - terra, objeto de trabalho e outros meios de trabalho - e trabalha com esses meios de produção. Por outro lado, o monopólio de classe sobre a terra e o monopólio de classe sobre o capital são imprescindíveis, no capitalismo, para subjugar o trabalho ao capital. O capitalista e o proprietário de terras se confundem na atual conjuntura econômica e fundiária brasileira. Noutro sentido, quando a posse da terra é preservada, e o agricultor emprega o seu trabalho e o de sua família, sem a utilização de trabalho assalariado na propriedade, estamos diante da sujeição da renda da terra ao capital. É a dependência do agricultor camponês em relação ao capital.
Os programas destinados às soluções dos problemas agrários, com vistas ao fornecimento de crédito, apoio técnico, máquinas e defensivos, têm como justificativa a produtividade, raramente falando-se em rentabilidade. Com efeito, as políticas públicas não levam os pequenos produtores ao fortalecimento econômico a ponto de garantir a sua permanência na terra e impedir a expropriação iminente. Todavia é neste processo contraditório das relações capitalista e não capitalista que o camponês se recria.

Referências:
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino. GEOGRAFIA AGRÁRIA: Perspectivas no início do Século XXI. São Paulo. 2003
PAULINO, Eliane Tomiasi. Por uma Geografia dos Camponeses. São Paulo: Editora UNESP, 2006.

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